Esteve patente, de 09 de Abril a 03 de Maio, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, a exposição individual de pintura e cerâmica “Multiverso de Sonhos e Visões”, da artísta plástica Manuela Madeira, com a curadoria de Yolanda Couto.
As fíguras que habitam as telas de Manuela Madeira representam maioritariamente mulheres, supostamente outras, se não negras, talvez árabes, fora do enclausuramento do espaço doméstico. Libertas, expressam uma interioridade manifesta em toda a latitude da tela e ocupam completamente a visão do horizonte tal qual o cume de uma montanha inteira, – vaga de mar capturado ou cordão de árvore florestal -, imagem condensada e
arremessada da distância aos nossos cílios, e neles colados transmovem a longínqua vastidão do mundo, das cidades de gentes e ruas invisíveis em universos paralelos.
Assim, mesmo não querendo, entramos dentro de cada uma destas figuras projectadas em telas ao nosso encontro, intimando-nos a olhá-las de frente, sobrepostas num delineamento de traços negros e cores de contrastes e trajes vibrantes de verde, azul, vermelho, castanho e amarelo, uma paleta que as distingue como indivíduos, mas quando os braços se entrecruzam e as mãos se levantam, estas empunham o branco das bandeiras da paz e serenidade que todos buscamos. Eis a génese da notícia das telas da artista
Manuela Madeira. É-nos dada em todas as cores coordenadas em fronteiras individuais, o enlevo colectivo quando um e outro, se transforma numa e noutra, metamorfoseando-se
verticalmente num todo, para o eclodir da multidão acima do pano de fundo.
A vulnerabilidade individual torna-se o mar da força emanada por cada figura solitária na tela que transfigurada em mil de nós, afirma silenciosamente, em uníssono: “Presente!” Sou a Roya Heshmatti, curda-iraniana, chicoteada 74 vezes por não usar o hijab. Somos a Azd, Donya e Bahareh, três mulheres iranianas que resistem à imposição do uso do hijab. Sou a Hebbe Zagout, artista palestiniana morta num ataque israelita. Sou a Venilda, a mulher
moçambicana esbofeteada pela polícia e que a oposição tomou como heroína. Somos a dor agridoce de quem vence a opressão colectiva. Somos a sensibilidade da pele nua do corpo da mulher encoberta pelos panos da tradição para que escondam e apaguem a humilhação e a violência a que nos querem submeter.
“Presente, estamos aqui!” Nosso olhar impávido, nosso abraçamento é cor e movimento estático e silencioso porque sendo mulher, somos o caroço da resiliência humana através dos tempos.
